
Tenho percebido, ultimamente, que ao ficarmos de licença e por conseguinte, termos mais tempo sozinhos com o nosso filho, ficamos mais atentos a certas coisas que antes não ligávamos muito. Uma dessas coisas, sobre a qual começo a sentir necessidade de desabafar é a surpreendentemente grande quantidade de pessoas que me aborda quando estou sozinho com o Sebastião na rua.
Não estou a falar dos simples “É tão bonito”, “É um rapaz?” ou “Que riquinho” (coisa que descobri agora que é mesmo algo que as pessoas dizem). Estou a falar da facilidade com que gente que nunca vi na vida, passa por mim numa esplanada e diz “Posso ver?” enquanto agarra no carrinho e o viram para eles, transformando a sua própria questão numa questão retórica.
Confesso que as primeiras vezes cheguei a ficar um bocado babado… Achava claramente que era algo que só faziam com o Sebastião por ser uma lindeza de criança e não me importava de ser incomodado por isso! (Ingenuidade de pai de primeira viagem, eu sei!) Contudo, com o passar do tempo, o aumentar das vezes que isto sucedia e com uma observação mais apurada da atitude das mesmas pessoas para com outros bebés, percebi que se tratava apenas de um ser humano querer olhar para outro, porque sim.
Os Pais, são meros espectadores deste processo, servindo apenas para o observador despejar o seu aviso / pergunta de que vai ver o bebé. Seguidamente, pegam no carrinho, viram-no conforme lhes aprouver para poderem mirar e lá ficam um bocado à conversa com a criança. Uns “gugu-dádás” depois (no melhor dos cenários), já satisfeitos, voltam a colocar o carrinho na posição inicial, viram costas e vão à sua vida com ocasional “Obrigado” ou “Desculpe”. De notar que depois da primeira pergunta (na qual ninguém espera por resposta) não há qualquer questão adicional… Não interessa se o bebé está a dormir, se o carrinho está ali por alguma razão em particular ou sequer se me importo que um perfeito desconhecido pegue no carro onde está o meu filho e durante uns segundos o trate como seu. Na maioria das vezes não me importo, de facto. Com mais ou menos paciência lá vou sorrindo, acenando com a cabeça e concordando com os elogios que vão sendo feitos.
Mas não deixo nunca de me questionar onde é que isto nasceu. Quem terá sido a primeira pessoa que olhou para um Pai com um bebé e pensou “Bem… Vou ali olhar para aquela criança! Quer-me parecer que tenho todo o direito disso!”. Bem sei que os bebés são criaturas cativantes e maravilhosas, mas não deixam de ser pessoas. Não seria estranho que quando estivessem num café com amigos, alguém se chegasse ao pé desses amigos e dissesse “Olhe, vou só ver aqui este tipo!” enquanto vos rodava a cadeira onde estão sentados para que ficassem os dois cara a cara? Dito assim parece parvo, certo?
E há mais. Uma grande maioria dos praticantes desta actividade, não tem também grande pejo em largar uma festinha ou uma coceguinha. Se o olhar não me incomoda grande coisa, o tocar já me faz um pouco mais de comichão! Raramente digo alguma coisa e hoje em dia já me vou posicionando a mim e ao carrinho de forma preventiva, mas pela naturalidade das pessoas não tenho dúvidas de que ficariam elas ofendidas comigo se
soltasse um “Tente só não lhe tocar nas mãos e na cara” que fosse. Talvez seja eu a ser esquisito, mas voltem ao exercício anterior e adicionem agora o tal estranho a apertar-vos as bochechas… Aumenta ainda mais o grau de estranheza, não é?
Em suma… Fico feliz que gostem do meu filho, que sorriam e brinquem quando olham para ele, mas por favor, tentem perceber se não é inconveniente e acima de tudo, não lhe metam as mãos cheias de sei lá o quê na cara.
Até para a semana.
Photo by Catarina Ferreira (Ties)